Início Blog da Lena Adolescência O FICAR não é uma Banalização do Relacionamento Amoroso!

O FICAR não é uma Banalização do Relacionamento Amoroso!

Muitos pais e os próprios adolescentes, ainda ficam confusos com a ideia do ficar. Comigo não foi diferente, mesmo sendo uma educadora em sexualidade. Mas adquiri minha convicção sobre o FICAR quando uma mãe me procurou, pedindo ajuda para lidar com sua filha, que na época tinha 12 anos.  
A menina era muito lindinha e esperta, e sempre muito ligada nessa história de ficar. Mas sua mãe, ansiosa com a chegada da adolescência e insegura sobre como lidar com essa história do FICAR, nunca perdia a oportunidade de reafirmar que achava o FICAR uma coisa desnecessária, aliás, a ser evitada. 
Ela costumava dizer a sua filha:

– Se é pra beijar algum garoto, que então namore antes!!

Um dia, a filha dela foi ao aniversário de uma de suas amigas, e lá encontrou um garoto de sua escola com quem ela já tinha ficado.  Mas dessa vez, por influência da mãe, ou talvez porque os dois tenham resolvido experimentar, eles resolveram namorar. 

Ela chegou em casa, toda feliz e contou a novidade para a mãe:

– Mãe, eu estou namorando! 

Mas, no outro dia, quando a mãe foi busca-la na escola a expressão de felicidade havia desaparecido… Tudo havia mudado. Ela entrou no carro toda triste e abusada. E a mãe perguntou: 

– O que foi que aconteceu?… Acabou o namoro? 

E ela começou a chorar e a dizer entre lágrimas: 

– Não. É exatamente por isso que estou chateada. Namorar é muito chato! No recreio, eu queria estar com as minhas amigas, conversando, rindo, brincando… Mas não. Tive que ficar ao lado daquele garoto, um MALA, que a gente nem tinha nada pra conversar!! 

Eu só queria ter dado uns beijinhos e ter dançado com ele na festa, mas daí ter que ficar ao lado dele toda vez que a gente se encontra, é muito chato. Não posso nem ficar com minhas amigas!

Foi aí que entendi … Aquele momento, ela conseguia ficar, mas não namorar!   

O ficar tem seu valor para os adolescentes

O ficar é uma forma de relacionamento afetivo-sexual que permite troca de carícias, em geral da cintura para cima. Mas isto não é uma regra para todos os adolescentes. As carícias e a forma como cada casal vive o “ficar” pode  variar de acordo com os interesses e a maturidade sexual, de cada um. O mais importante, e que não é novidade para ninguém, é que o ficar pressupõe uma relação sem compromisso e com direitos iguais para o casal.

Mas ele tem também uma outra função: o Ficar pode ser uma etapa do relacionamento. Primeiro se fica e depois namora.

O interessante é que nesse dia eu descobri uma coisa muito importante, e quero compartilhar com vocês: foi que o ficar, além de ser uma etapa do relacionamento, ele também é um treino para desenvolver o papel sexual e o relacionamento a dois.

Hoje o namoro é muito intenso, e exige maturidade e experiência dos jovens! 

A cada dia o namoro se torna uma prática cada vez mais exigente. A convivência é muito intensa e a evolução da intimidade e das trocas de carícias ocorrem muito rápido, de tal forma que o casal muitas vezes não tem maturidade para lidar com ele. E aí… NAMORAR, em vez de ser aquele compromisso romântico, pode se tornar um encontro desastroso!!!

Não é por acaso que o ficar existe. 

O ficar não é esse bicho de 7 cabeças, uma banalização do relacionamento!!! 

Não! Ele  tem uma função essencial no desenvolvimento pessoal de um adolescente no processo de aprendizagem do relacionamento afetivo e sexual. Ele prepara os adolescentes para se relacionarem com outra pessoa.   

Nessa idade, a garota e o garoto ainda estão aprendendo a entender as sensações e a se entender no seu papel sexual. Aprendendo a ser namorado, a gostar de alguém. Eles não conseguem ainda saber lidar com alguém numa relação afetiva e sexual, muito menos viver uma relação com a possibilidade de tanta intimidade como acontece nos namoros, atualmente.

Portanto, a melhor conduta é respeitar o processo de desenvolvimento dos adolescentes e admitir que agora, “ o ficar” pode ser a melhor opção, como foi para a filha dessa mãe de nossa história.

Quando a mãe entendeu que o ficar é uma experiência importante nessa fase que sua filha se encontrava, ela percebeu que não há nada de errado com ele, como também não tem nada errado em namorar. Mas cada coisa tem seu tempo, e com isso ela  pode respeitar o tempo de sua filha.

Hoje essa garota é uma adulta. Durante sua adolescência, FICOU E NAMOROU muitas vezes. Depois casou e até já tem filhos.  

O ficar é uma experiência, que ao contrário do que muitos ainda pensam, vale a pena ser vivido!