Início Blog da Lena Surpreendi duas alunas se beijando. Como devo agir?

Surpreendi duas alunas se beijando. Como devo agir?

Recentemente, me deparei com uma notícia sobre uma pesquisa que revela uma realidade chocante. Um levantamento realizado pelo Instituto ECOS com 44 escolas mostrou que em 100% delas a homofobia estava presente.

Essa constatação me ajudou a recordar de uma situação que pode ajudar a pensar sobre isso.  Certa vez, fui abordada por uma professora, que me contou a seguinte história:

Duas garotas do Ensino Médio, no intervalo entre as aulas, se encontraram num local discreto, longe de onde estavam os demais alunos, para namorar. Eis que, quando estavam se beijando, a professora as viu! Em pânico,  levou o caso para coordenação da escola, que, por sua vez, imediatamente mandou chamar as famílias das duas alunas para comunicar o ocorrido e exigir que este tipo de relacionamento não voltasse a se repetir sob pena das alunas serem punidas.

Isto gerou o maior tumulto na vida destas meninas: comentários maldosos entre os colegas, olhares desconfiados e de censura por parte de alguns professores e funcionários da escola, e pior, a discórdia familiar, uma vez que seus pais não sabiam de sua orientação sexual.

Bom, diante do colocado, nem preciso dizer que a postura da professora e da coordenação da escola foi completamente inadequada. Perguntei se elas teriam feito o mesmo se, em vez de duas meninas, a professora tivesse se deparado com um garoto e uma garota? Ela me disse que não.

A conduta adequada nesse caso seria chamar as meninas para uma conversa em particular sobre como elas estavam se sentindo na sua orientação sexual e se estavam precisando de algum apoio – e trabalhar o tema da diversidade sexual com os alunos na sala de aula.

A escola, como um todo, não soube como lidar com a situação. Expôs as meninas, criando dor, sofrimento e humilhação. A questão não foi o beijo na boca, mas sim a homossexualidade, o que configura um caso explícito de preconceito.

Homofobia é o termo usado para definir o medo irracional diante da homossexualidade ou da pessoa homossexual, colocando-a numa posição de inferioridade por meio de violência física e/ou verbal. Diferente do que muita gente possa imaginar, não são apenas as atitudes extremas e claramente declaradas que se caracterizam como homofóbicas.

O que acontece na escola

Vamos fazer uma reflexão sobre algumas atitudes consideradas “inofensivas”  por muitos educadores e alunos e que podem causar uma verdadeira agressão à moral e ao emocional das vítimas.

Como você lida com termos preconceituosos e xingamentos entre os alunos, como quando os meninos se chamam de “viado”?

Você já ouviu alguma vez um professor  se referir a um aluno como bichinha ou sapatão? Ou questionar a orientação sexual de um aluno, privada ou publicamente?

Essas brincadeiras preconceituosas e de muito mau gosto estão no cotidiano das escolas e são, muitas vezes, ignoradas. Ou pior, consideradas divertidas! A homofobia compreende desde as conhecidas piadinhas até ações de violência verbal e física, como xingamentos, agressões e assassinato.

Numa sociedade que ainda não é tolerante com a diversidade sexual (e que mantém  uma série de outros preconceitos e injustiças), a escola deve se assumir como espaço de promoção da cidadania. O papel do professor é muito importante para evitar agressões e manter o respeito dentro e fora da sala de aula.

Questões para reflexão na escola

  • O professor deve ter em mente a possibilidade de ter alunos homossexuais em sua sala de aula;
    • Todos os profissionais da escola, principalmente o professor, precisam entender os temas que envolvem a formação da identidade de gênero, a orientação sexual e a identidade sexual;
    • A escola deve estar preparada para lidar com as novas configurações familiares, que incluem pais homossexuais;
    • Trabalhar a diversidade sexual, focada no respeito ao próximo;
    • O professor precisa enfrentar o medo de denunciar o bullyinghomofóbico, ou qualquer agressão, e incentivar os seus alunos a fazerem o mesmo.
    • Ficar atento ao silêncio das vítimas
    • Dar proteção e apoio as vítimas para que as agressões não se perpetuem
    • A recomendação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) é para que a vítima de homofobia na escola registre um boletim de ocorrência (BO) sobre o caso, denuncie ao Disque 100 e relate o ocorrido para a ABGLT no correio eletrônico: presidê[email protected]

Abordar a homofobia na escola não é uma questão de incentivar a homossexualidade – como pensam alguns – ou fazer oposição a valores religiosos. É uma reflexão sobre saúde, cidadania e respeito às diferenças, sejam elas quais forem: econômica, racial, religiosa e sexual. Acredito que um trabalho desta natureza pode proporcionar a formação de jovens com capacidade crítica, que consigam respeitar e conviver com o outro.

Você já vivenciou experiência semelhante na sua escola? Compartilhe conosco e vamos ampliar o nosso conhecimento sobre esse tema